domingo, 8 de julho de 2012

A ampulheta e a fenda do tempo



       O tempo cabe no pensamento e os grãos de areia no deserto e a extensão no universo.  Chegam até a encruzilhada, duas setas, duas direções encravadas na alma e na mente. Imaginando o pensamento que deixou de pensar, ou que não quis pensar. O pensamento se foi antes de ser pensado e nunca voltará. Calado, o silêncio se faz ouvir por todos que querem escutar. Tudo ainda está por fazer e o desfaz de cada momento se faz a todo o instante. Próximo as veredas caminhe sempre ao lado do seu coração e somente assim as dores profundas dos espinhos serão aliviadas. Na imensidão de tudo e no ínfimo universo um olhar e o admirável mundo novo sob novas possibilidades.
        A infinitude do momento e a grandeza de todos os instantes na eternidade de um segundo. O tempo se esvai sob o tempo que se fez passado no espaço-tempo e num milionésimo de vazios na tenaz loucura de um planeta na palma da mão. Os dedos do acaso tocam os céus e tecem estrelas com as linhas do horizonte. O desenho do mundo geometricamente produzido pelas mãos celestial. No ventre materno germina sementes de sonhos na primavera da alma e esperanças no duro chão da realidade.
       Uma borboleta voa rasante sobre o riacho de água cristalina e pousa sobre um banco de areia em outra margem do riacho. Enquanto meus olhos se perdem na imensidão do infinito. Em meio a toda a essa crise em que vive o nosso mundo, aliás, em que vive as pessoas. São as pessoas que estão em crises, e não o mundo como todos falam. Se assim sendo então, o homem é eximido de tudo, tudo que acontece é pela força do acaso. As duas guerras mundiais e os muitos confrontos e conflitos no mundo hoje são coisas naturais, seria muito cômodo pensar assim.
      Ainda falo ao tempo um segredo, só peço que não conte a ninguém.  Não sei em que momento vou te encontrar, não sei se algum dia te encontro sorrindo às estrelas e apanhando flores no jardim secreto sob suaves melodias e noite enluarada. Ainda lembro não faz muito tempo você viajando em insólitos pensamentos desembarcando na solidão dos jardins.  Em volto as alfazemas, perdi-me entre os seus olhares e não me encontrei em mim o que procurava em você. E o meu mundo se faz logo ali além do horizonte, entre resquícios de cristais e utópicas esperanças. 
      Não falo de mim, falo de coisas distantes em lugares inimagináveis, onde mora o sol e as estrelas brilham com mais intensidade. Cacos, cavacos e o avesso da pele em estilhaços de sonhos às margens dos dias inacabados. O mundo imaginado entre planícies e montanhas dos cegos que olham e não conseguem enxergar. Distante caminhar no caminho do arco-íris e depois do sol o oásis, lágrimas e flores na tristeza de um único solitário. Nômades nesta terra de hipocrisia, de luxuria, fome e injustiça. Agora o sentimento, depois as paixões e quem sabe ainda haja amor.  A ampulheta se perdeu sobre as areias do deserto e não viu o tempo que já passou, a fenda se fechou. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” poetizou Fernando Pessoa.

Luiz Carlos de Proença

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