De repente vem o vento e me leva para estranhos lugares em longínquas paragens.
Como arauto do meu tempo, imagino o tempo todo, se talvez nada fosse assim como é.
E logo adormeço nos braços dos meus sonhos, e ao sonhar, somente peço que me espere em qualquer esquina.
Talvez esse caminho seja longo demais.
E eu não consiga chegar.
Imagino-me como um barco à deriva sobre águas calmas, mas estranhas.
De repente sou uma criança e o lúdico passa a ser o meu mundo.
Nas entranhas, as veredas em infinitos olhares e horizontes em distantes paisagens.
Talvez o arco-íris e as cores dos sonhos na penumbra de uma tarde qualquer.
A vitrine do tempo diante de meus olhos em inconstantes pensamentos e estilhaços de ilusão entre flores e espinhos no jardim da solidão.
Então, as águas jorrarão e o tempo seguirá o seu fluxo.
Levo as mãos à testa e vejo as estrelas das noites futuras.
Tudo perde o seu sentido e as feridas não querem cicatrizar.
E as noites são frias demais e não vejo meu barco flutuando sobre as nuvens de algodão.
E o vento me leva as outras margens de outros rios.
E deflagrando de um momento de silêncio deixo-me levar por alguns instantes para além de mim.
Mas o mundo em minha volta não me deixa dormir e os anjos velejam estrelas no quintal do paraíso.
E nas asas feridas, a liberdade em busca de sossego nas madrugadas vazias.
Minhas quimeras e meus arquétipos e a terceira margem do rio.
O sol desenha seus raios em luzes e aquece os corações gélidos.
E um céu depois outro céu e um infinito após outros infinitos.
Mas, a chuva apaga o sol e molha as mentes já cansadas.
Ontem, o sonho não chegou e hoje o dia passou tão rápido e amanhã será que existe?
Apanho flores em qualquer quintal, apesar dos espinhos, e vejo o dia amanhecer.
Talvez as manhãs desapareçam com os raios de muitos sóis.
E à noite sempre chega para abraçar a lua e adormecer sob o brilho das estrelas.
Enleva-me, leve-me, leve como um pensamento a voar na vastidão de meu sentimento.
Extático, vejo tudo fluindo, tudo muda, tudo se transforma e tudo se esvai com o tempo.
E a beira-mar um louco contempla o infinito.
E no paradigma do absurdo, olhares se perdem e os sonhos fogem por entre os dedos.
Diante do espelho o reflexo da alma e as lágrimas buscam outros olhares nos labirintos da noite.
Tudo existe, coexiste, insiste, subsiste.
Cacos e cavacos lembranças e histórias no avesso do avesso e a essência se faz forma e se perde no ínfimo momento de um piscar de olhos.
Hoje quero sonhar em outros jardins e acordar no campo das estrelas.
No alto da montanha um cálice quebrado e o sepulcro dos ignorantes.
Arrebata-me e leve-me aos altos dos céus e sobre um turbilhão de luzes sob os vestígios do nada, tateando a imagem em fragmento sobre os escombros da verdade.
Com as mãos vazias, a fome de pão e a sede do mundo na secura de todos os corações.
Abraça-me num instante qualquer e vomita o coração da humanidade num hiato de ternura e complacência.
E o vento chega mansinho e espanta o silêncio e num pouco de cada dia um verso de qualquer poesia. E na poesia de todos os momentos, um instante apenas, um instante.
E o mundo se faz e se refaz na esperança que sempre renasce.
No coração do homem o que já foi o que é, e o que está por vir.
E o que já foi feito e o que está por fazer.
Esperanças e sonhos se abraçam, sob as lágrimas dos olhares perdidos, que trazem nas mãos as flores do amanhã.
Num canto qualquer, um canto de paz e um cálice de silêncio numa suave e sublime melodia a embalar milhões sonhos num ínfimo instante.
Utopia, sonho e esperança, o ser na insistência de ser.
Um olhar na insistência do olhar.
O transcendente perpassa o ser num momento extático.
Forma e essência, numa perfeita simbiose.
Humanizar o humano que há em nós, é ser um pouco de nós mesmo, onde cada um constrói e se constrói, na construção do todo.
Luiz Carlos de Proença
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