As portas entreabertas acolhem as dores das feridas do tempo. Nos muros ainda as frases de protestos, e a melodia suave do vento ao entardecer. Num canto qualquer, talvez qualquer coisa, talvez um sonho tentando esquecer a realidade e se escondendo por entre o vazio do nada. Na mente apenas lembranças, resquício de momentos, vestígio de um instante que se faz presente na ausência de um olhar. Mas o mundo não para, para repor e recompor os instantes que fez passado no simples piscar de olhos. Não adianta consertar o que se quebrou, o tempo não se refaz, e as águas correm para o mar. Talvez alguém me explique o inexplicável, essa complexidade, cujo paradoxo seja o próprio complexo do complexo humano. Ainda que haja respostas para tudo, haverá perguntas sem respostas. E não adianta dar velhas respostas para novas perguntas. Não será possível explicar o acaso, não sabemos ler o enigma do tempo. Tudo se esvai, na perene perplexidade do absurdo. O sentimento apagou o sol no silêncio de um instante que se acabou. Quem são os autores da divina comédia humana? Imagino o inimaginável e a possibilidade de não imaginar o quão é solitário a solidão. E o sonho não quer sonhar e a noite parece uma eternidade, mas os olhos querem ver e as mãos acariciam a face das manhãs. Mas, a dor perpassa a alma e perfaz o caminho sobre as curvas das veredas, e sob os olhos do caos. Não adianta dizer que ama, se a realidade está errada. Não adianta vir com meias verdades, pois na batalha humana ela é a primeira a ser derrotada. A mente aturdida em busca no inalcançável sabe-se que o céu é o limite. Não, não vá, fique mais um pouquinho e se delicie com a delícia da doçura das doces lembranças dos dias que estão por vir. Ainda há voz, mesmo que seja apenas um murmúrio. Ainda há paz, mesmo que esteja distante. As mãos querem alcançar as estrelas, mas o céu está distante demais, a indignidade impede de aproximá-la. Não digas que não há mais tempo, não me deixe só em meio a escuridão. Envolvido em êxtase, desfaço em silêncio e me embriago com um cálice de desejo, e me perco mata adentro. Não posso ver, não consigo sair sou um transeunte nessas estranhas veredas. Não é metáfora e muito menos parábola, é a pura realidade da saga humana, do poder e do puder. Talvez, haja outros caminhos, mas há flores mortas e palavras vazias. Mas, o sol ainda aquece e a chuva floresce os jardins e um Deus solidário habita em cada um. Pela fresta da janela uma réstia de sol e um convite à vida, pulsando incessantemente. De repente, o transcendente desfigura em minha frente, e deslumbra o paraíso. Volto a mim mesmo e refaço todos os momentos na eternidade de um instante, na louca loucura de um sonho interminável.
Luiz Carlos de Proença
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