domingo, 28 de agosto de 2011

A borboleta sonhadora

      
Numa bela tarde de verão, uma borboleta recém saída de seu casulo, sobrevoava a imensa floresta. Como era o seu primeiro vôo, tudo era grande, imenso e até certo ponto assustador. Voando serenamente, a pequena borboleta pensava e pensava..., mas tinha medo de quase tudo, até de perguntar para si mesmo. Continuando o seu vôo, ela deparou com um imenso clarão, e levou um grande susto, pois tudo do alto era belo, um verde exuberante, e de repente aquele vazio. E naquele momento a pequena borboleta pousou sobre o galho de um enorme jacarandá  para descansar. Foi, então que a pequena borboleta começou a pensar e perguntar para si mesma, pois tudo era estranho, e ela era visto com indiferença.
       Quem sou? E onde estou? Começou a filosofar a pobre borboletinha. Por que todos passam por mim e me ignoram? O que eu tenho de diferente? Perguntas sem respostas. No silêncio do seu ser, mergulhou nas suas entranhas, a procura de sentido para sua existência. Lembrou que até tão pouco tempo não fazia parte daquele lugar. Então, como eu vim parar aqui deste lugar? Eu não sei! Mas vou descobrir. E saiu a procura de respostas. Não precisou voar muito longe para encontrar algo parecido com ela, bem maior é claro. Seguiu-a, até que a outra borboleta pousou no galho de uma grande árvore e a borboletinha ficou só observando, até que a outra borboleta alçou vôo. Então, ela aproveitou e foi ver de perto o porquê aquela borboleta havia pousado naquele galho. Havia ali um casulo pendurado em um dos galhos, já preste a romper e dar vida a uma nova borboletinha. E o casulo se abriu e uma borboletinha parecida com ela alçou um vôo rasante e sentou num pequeno arbusto próximo.
     Então, a borboletinha começou a ligar os fatos, mas como ela é parecida comigo, então nós somos na mesma turma, concluiu sabiamente a pequena grande borboletinha. E com o passar do tempo ela passou a compreender, que fazia parte de uma floresta, que esse era habitado por muitos seres das mais diferentes espécie e tamanho e sua missão era se relacionar bem com todos, independentemente de suas diferenças. E continuou o seu vôo, e de repente depara com aquela borboletinha ali ao chão toda esmagada. E começou a perceber que a coisa não era bem assim como pensava. Se ela foi esmagada, existe alguma coisa ou algum ser maior ou mais poderoso, que pode nos machucar. E notou que a floresta era desigual. E com isso passou a voar mais alto, sem se importar com quem estava ao seu redor.
      Mas ao pousar sobre uma árvore com galhos secos, começou a refletir sobre a sua existência. E comparou aquela árvore com seus galhos secos. Com outra com seus galhos frondosos e ramas vicejantes. E que tanto as árvores pequenas como as grandes eram lindas, coloridas e cheias flores e frutos com abundâncias. E compreendeu que aquela imensa floresta era a sua casa, que tinha responsabilidade sobre ela. E todos que ali morava sobrevivia do que a floresta oferecia. E percebeu que os mais fortes sempre levavam vantagens. E cada dia, mais e mais árvores eram  tombadas. E aqueles bichos sem dó e nem piedade não paravam de poluir os rios e devastar a floresta. Enquanto muitos passavam fome e sede, pois não encontravam mais comida para matar sua fome e nem água para matar sua sede.   Mas, o que fazer, se cada um se fechou dentro de si, não se importando com os problemas da floresta? Assim morreremos todos, contaminados pelo nosso egoísmo. De que adianta eu me empanturrar com as delícias, se a maioria da floresta não compartilha comigo, ou será que a insensibilidade deve permear os corações de todos nesta floresta? Mais uma pergunta sem resposta.  
     A floresta não pode ficar assim a mercê dessas corjas que só querem roubar e destruir o patrimônio público. Não podemos aceitar essa situação, se vivemos nesta floresta, temos que cuidar, é nossa responsabilidade perante as futuras gerações, questionou a borboletinha que não era mais tão pequena assim. Mas o que fazer, indagou a si mesma. Acho que encontrei uma saída! A única saída é unir todos em prol da floresta. Ou nós conservamos e vivemos todos ou cada um  cuida de si e morremos um pouquinho a cada dia, concluiu-a. E saiu a voar a procura de parceiros, voluntários com quem pudesse discutir suas idéias. Encontrou vários voluntários, mas ao expor suas idéias, foi ignorado por alguns, outros diziam que sim, mas não queriam se comprometer, isso poderia atrapalhar seus negócios. E outros eram indiferentes e não estavam nem aí com a coisa. Que se dane a floresta o que importa é a minha família. Outros ainda chamavam de revolucionária besta, subversiva, comunista. Mas ela não desanimou e com muita dificuldade conseguiu reunir uma meia dúzia assustada e medrosa, mas sós deles concordar em reunir e discutir os fatos já era uma imensa alegria para a sonhadora e subversiva borboletinha, como ficou conhecida.
      Com a coordenação da valente borboletinha, aquele grupo foi aos poucos aumentando, tanto quantitativamente como qualitativamente. É lógico que ela teve medo, muitas foram as ameaças, daqueles que não queriam mudanças. Que queriam se perpetuar no poder. Mas o sonho de ver e viver numa floresta livre eram mais fortes do que qualquer ameaça. O amor é mais forte e vence qualquer coisa, pois o sonho é de quem sobe até a montanha.

Luiz Carlos de Proença

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