sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Depois da outra margem

      Em alto-mar, barco à deriva, sem rumo, sem direção. As mentes antenadas de continente para continente transmitem a divina comédia humana. Os corações dilacerados e a flor ferida choram as lágrimas do orvalho das manhãs. Diante de mim, o silêncio inquietante e uma viagem ao desconhecido em busca de outro norte. E tranquilamente aquele barco segue em meio ao lamaçal e encalhando aqui e acolá, mesmo assim segue a procura de outras paragens.
       Enviaste flores a sua existência, pois foi assim mesmo que perdeste ao longo do cominho à vontade e o desejo de chegar. A liberdade rompe as correntes das aprisionadas paixões que se misturam entre a razão e a emoção. Um grito liberta a alma ensandecida desfigurada frente a algo estranho. Nas veredas a aurora de todos os dias e o encanto em todos os olhares, embora o desencanto desfaça o sonho e a ilusão desiludida entre lágrimas e lamentos.
     Um instante já é passado, tudo que eu for escrever inicia-se no presente e ao terminar é passado. Infinitos aos olhares que vagueiam solitários, e assim segue, seguem o caminhar os mesmos caminhos, as mesmas dores e as mesmas angustias. Somente só e solitário por apenas alguns momentos que parece se perpetuar. Ao longe o refugio nômade do arco-íris depois da tempestade que devastou o paraíso.
       Entre o existir e o viver, há o ser e esse ser é o outro que também existe e anseia por viver, que não quer ser apenas mais um. Plenamente ungindo pela chuva que faz a terra germinar a semente para colher fruto e folhas, flores e essência. Contrasta a emudeceis e a decência, o cosmo e o caos ao bailar das nuvens.  Entre todas as criaturas, somos as mais frágeis, precisamos e necessitamos de cuidados. Assim somos como crianças brincando no quintal do paraíso sob os olhares de um Pai amoroso que zela de cada um de seus filhos.
      A ilusão desiludida frente ao sonho que fez pesadelo num encontro desencontrado. Sob a noite o fel em poucas doses embriaga o sono que se esvai nos próximos segundos. Soa o silêncio no vazio de um instante em pleno amanhecer de um dia qualquer e um instante de eternidade. O bem é mais e um pouco de alguma coisa para preencher o um simples momento para esconder o mal no subterrâneo do ser. Não adianta dizer que a vida é bela diante da miséria que sucumbi corpo, corrói alma e devassa corações e mentes.
        A vida é muito simples, é como dizem, o mundo é um livro aberto para quem sabe ler e sentir o gosto do saber nas nuances do aprender. O conhecimento é fascinante, quanto mais se aprende, mais se envolve no mundo do saber. E aí vem a frustração, percebe que quanto mais se pensa que sabe, na verdade nada se sabe. Como disse o filósofo Sócrates, “só sei que nada sei”. O universo do saber é infinito, assim como são infinitas as estrelas em uma noite qualquer.
     Nos caminhos das desventuras, escravos de um pensamento padrão, cuja futilidade é a máxima doutrinária. Ensandecidos pelo barulho infernal, o silêncio se refugia e cala-se diante de tantos absurdos.  O chão sumiu ao tocar as estrelas e do alto dos céus as cabeças lançadas ao chão num suicídio coletivo. Até que as estrelas caiam espalhando seus brilhos sobre as mentes, num surto de sabedoria. O tempo se foi, e o vento já passou e o sonho segue seu caminhar alimentando a essência dos sábios que habitam um tempo qualquer. E nas entrelinhar do caminhar um transeunte em distantes veredas fugindo de si mesmo refém dos próprios pensamentos.
       E as pedras falarão, quando os homens se calarem e o silêncio falarão ao infinito o segredo das sete chaves que adentra ao paraíso. A seta ponta para outros nortes depois da outra margem, de outros rios que inundam imensidões, desertos e sertões. Cidades e canções, lendas escritas em versos e palavras cantadas ao silêncio nas noites futuras e sonhos infidos.  
        A areia se esvai entre ampulheta e o tempo que se perdeu na fenda que se fechou sobre os olhares enfáticos do senhor da razão. A bussola não consegue encontrar o seu norte e a noite adentra e nutri de ilusão o ser que perfaz a alma e solidifica o espírito. Uma flor desabrocha silêncio! Uma vida foi concebida. E a consciência busca refúgio no parir da paciência, na paranóia do caos. Volto à história e revivo o filme de sonhos no oásis de emoções. No espelho da mente a imagem refletida daquele barco em alto-mar. Em volto ao cio da criação, O parto da vida. O grão, a semente, o fruto, o alimento e o amor!    Tudo silencia! E aquele barco...

 Luiz Carlos de Proença

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